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O que é uma castanha? Nozes, drupas e sementes

Amêndoas, avelãs, pistaches, castanhas-de-caju, castanhas-do-brasil, macadâmias, castanhas portuguesas e amendoins dispostos sobre mesa de madeira.

O Livro das Castanhas · Capítulo 01

Amêndoa, pistache, castanha-de-caju, castanha-do-brasil, avelã, macadâmia: na cozinha, todas cabem na mesma tigela. Na botânica, porém, quase nenhuma delas é o que o nome promete. Afinal, o que é uma castanha? A resposta curta surpreende: a palavra nasceu na cozinha, não na ciência das plantas. Por trás dela convivem nozes verdadeiras, sementes de frutos de caroço, sementes de cápsula e até uma leguminosa.

Entender essa diferença não é preciosismo. Pelo contrário, ela ajuda a explicar por que uma castanha é amidosa e outra é gordurosa. Além disso, esclarece por que o caju é vendido de um jeito tão particular e por que a alergia a um alimento pode, ou não, se estender a outro.

O que é uma castanha: uma palavra da cozinha

“Castanha” vem do latim castanea, que veio do grego. Os gregos diziam que o nome homenageava cidades chamadas Kastanea e Kastana. Os linguistas suspeitam do contrário: as cidades é que teriam recebido o nome da árvore, e a palavra seria um empréstimo de uma língua da Ásia Menor. Já “noz” vem do latim nux, da mesma raiz do inglês nut.

Com o tempo, as duas palavras passaram a nomear uma categoria de uso: sementes crocantes, saborosas, quase sempre ricas em gordura, comidas cruas, torradas ou transformadas em doces. É uma classificação de cozinheiro, e funciona muito bem à mesa. Mas basta abrir os frutos para ver que cada “castanha” conta uma história diferente.

Nozes verdadeiras: quando a casca é o próprio fruto

Para a botânica, uma noz verdadeira é um fruto seco, com uma única semente, cuja parede dura se forma inteira a partir do ovário da flor. Ou seja, a casca que quebramos é o próprio fruto. Entram nessa categoria a castanha-europeia (Castanea sativa), aquela assada no inverno português, a avelã (Corylus avellana) e a bolota do carvalho.

Castanhas-europeias de casca marrom brilhante, algumas cortadas revelando o interior claro, junto a ouriços espinhosos abertos e folhas serrilhadas do castanheiro.
Na castanha-europeia, o invólucro espinhoso protege os frutos. A casca marrom de cada castanha é a parede do fruto botânico, que envolve a semente comestível.

Das castanhas que mais aparecem na mesa brasileira, só essas duas primeiras são nozes no sentido estrito. Todas as outras chegaram ao grupo pela cozinha.

Sementes de caroço: a família do pêssego

A amêndoa (Prunus dulcis) é parente próxima do pêssego. As duas plantas são tão aparentadas que os híbridos entre elas são férteis. A grande diferença está na parte do meio do fruto: no pêssego ela vira polpa suculenta; na amêndoa, seca e se transforma numa casca verde e couriácea. O que comemos é a semente que fica dentro do caroço. Botanicamente, a amêndoa é a semente de uma drupa, o mesmo tipo de fruto da cereja e da ameixa.

Ramo de amendoeira com flores rosadas e frutos verdes, alguns abertos mostrando o caroço lenhoso, acompanhado de amêndoas com casca, sementes marrons e amêndoas sem pele sobre madeira rústica.
A amêndoa que comemos é a semente de uma drupa. O fruto possui uma camada externa que envolve o caroço lenhoso, dentro do qual se encontra a semente comestível.

O pistache segue a mesma lógica: é a semente de uma drupa da Pistacia vera. Seu “sorriso” tem explicação: é a própria semente, ao crescer, que força a casca a se abrir pela fenda longitudinal. Por isso, cascas abertas costumam guardar sementes maiores.

A noz (Juglans regia) e a pecã ficam numa zona de debate. Alguns botânicos as tratam como drupas secas; outros usam termos próprios, como “tryma”; outros ainda falam em noz. Por isso, o mais honesto é dizer que costumam ser classificadas como frutos drupáceos, sem encerrar a discussão.

O caju de cabeça para baixo

O caju talvez seja o caso mais surpreendente. A parte suculenta, que vira suco e doce, não é um fruto: é o pedúnculo que inchou, um pseudofruto. O fruto verdadeiro é a castanha, pendurada na ponta. Dentro dela está a semente que comemos.

Cajus vermelhos e amarelos pendem de um cajueiro florido, com frutos verdadeiros presos à extremidade dos pedúnculos carnosos.
No cajueiro, o pedúnculo carnoso é um pseudofruto, enquanto a castanha corresponde à semente protegida pelo fruto verdadeiro.

A casca dupla da castanha guarda uma resina cáustica, rica em ácido anacárdico, cardol e cardanol, substâncias que irritam a pele. Por isso a castanha passa por processamento antes de chegar ao comércio, e a palavra “crua” na embalagem significa apenas “não torrada para consumo”. Em 1982, na Pensilvânia, 54 pessoas tiveram uma dermatite parecida com a da hera venenosa depois de comer castanhas de caju importadas que ainda carregavam fragmentos de casca.

Sementes de cápsula e de folículo

A castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa) nasce de outro jeito. Seu fruto, o ouriço, é uma cápsula lenhosa que guarda de 10 a 25 sementes. Cada “castanha” que compramos é uma dessas sementes, com sua própria casca. Quem abre o ouriço na floresta é a cutia: ela rói a cápsula, come parte das sementes e enterra outras, que às vezes esquece e viram novas castanheiras.

Ouriços lenhosos arredondados da castanha-do-brasil, um inteiro e outros abertos revelando sementes de casca marrom, com castanhas descascadas sobre folhas verdes diante de uma floresta tropical.
O ouriço lenhoso da castanheira abriga sementes protegidas por uma casca rígida; delas se obtém a amêndoa comestível.

A macadâmia, da Austrália, vem de um folículo, um fruto que se abre por uma única fenda. A parte comestível é a semente, protegida por uma casca duríssima.

Ramos de macadâmia com folhas verdes brilhantes, flores claras e frutos verdes arredondados, acompanhados de frutos abertos, cascas marrons resistentes e sementes claras em uma tigela de madeira.
Na macadâmia, o fruto verde envolve a semente, cuja casca lenhosa e resistente protege a parte comestível.

As intrusas: amendoim e baru

O amendoim é uma leguminosa, parente do feijão e da ervilha. É a semente de uma vagem que amadurece debaixo da terra. Ele divide a tigela com as castanhas porque é crocante e gorduroso, e o Guia Alimentar o coloca no mesmo grupo de uso. Mas, para a botânica e para a legislação de alergênicos, ele é outra coisa.

Planta de amendoim com folhas verdes, flores amarelas e vagens desenvolvidas sob o solo, acompanhada de amendoins com casca, vagens abertas e sementes avermelhadas.
No amendoim, as flores se formam acima do solo, mas as vagens se desenvolvem debaixo da terra — fenômeno conhecido como geocarpia.

O baru, a “castanha do Cerrado”, também pertence à família das leguminosas, embora seu fruto seja uma drupa. Dele se come a amêndoa e também a polpa.

Mesmo nome, química oposta

A diferença de origem aparece também na composição. A castanha-europeia é sobretudo amido: tem pouco mais de 1 g de gordura por 100 g quando crua, e por isso é macia e farinhenta depois de assada. A castanha-do-brasil é o oposto: cerca de 65 g de gordura por 100 g, o que explica sua textura amanteigada e sua facilidade de rançar.

Na cozinha, isso muda tudo. Uma castanha amidosa se comporta como um tubérculo: assa, cozinha, vira purê. Uma castanha gordurosa se comporta como uma reserva de óleo: torra, perfuma, vira pasta, e pede cuidado no armazenamento.

Por que a classificação importa na alergia

Na rotulagem brasileira, a RDC nº 727/2022 da Anvisa, que substituiu a RDC nº 26/2015, estabelece regras para a declaração de alergênicos. O amendoim é identificado separadamente das castanhas. A lista inclui, entre outros, amêndoas, avelãs, castanha-de-caju, castanha-do-brasil, macadâmias, nozes, pecãs e pistaches. Por isso, a classificação culinária não substitui a leitura cuidadosa do rótulo.

O parentesco botânico ajuda a entender as reações cruzadas. Elas são mais frequentes entre plantas da mesma família, como caju e pistache, ou noz e pecã. Ainda assim, cada pessoa reage de um jeito, e estar sensibilizado num exame não significa ter reação ao comer. Quem tem alergia a qualquer castanha ou ao amendoim deve seguir a orientação do seu médico antes de experimentar outra.

Onde está a castanha?

Infográfico botânico comparando castanha-europeia, avelã, amêndoa, pistache, noz e pecã, com nomes científicos, famílias, tipos de fruto, cortes anatômicos e partes comestíveis.
Nozes verdadeiras e drupas: diferentes estruturas botânicas por trás do nome castanha.
Infográfico botânico mostrando castanha-de-caju, castanha-do-brasil, macadâmia e amendoim, com ilustrações das plantas, cortes dos frutos, nomes científicos e identificação das sementes comestíveis.
Caju, castanha-do-brasil, macadâmia e amendoim: outras origens botânicas de sementes comestíveis.

O que levar deste capítulo

“Castanha” é uma categoria da cozinha, não da botânica. Sob o mesmo nome convivem nozes verdadeiras, sementes de frutos de caroço, sementes de cápsula e uma leguminosa. Saber de onde cada uma vem ajuda a entender sua textura, seu comportamento no fogo, seu armazenamento e até os cuidados com a alergia.

Nos próximos capítulos, abrimos cada fruto com mais calma: o pistache e sua febre recente, a castanha-do-brasil e a floresta que a sustenta, a química da torra e a longa viagem da amêndoa até o macaron.

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Fontes e aprofundamento

Quem escreve: LabCoccina, por uma farmacêutica e chef. Explicar com clareza, investigar com rigor e contar com afeto. As afirmações científicas deste artigo são ligadas às fontes indicadas no texto. Sobre o LabCoccina · Biblioteca Viva

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