O Livro das Castanhas · Capítulo 03
Não se planta castanha-do-brasil como se planta milho. Cada semente que chega à mesa depende de uma aliança antiga: uma árvore que pode viver mais de mil anos, abelhas grandes da floresta e um roedor que enterra comida e esquece onde. A castanha-do-brasil é, literalmente, o fruto de uma floresta inteira.
Para compreender essa relação, seguimos o caminho da castanha-do-brasil: da flor ao ouriço, do ouriço à cutia e, finalmente, da floresta ao solo que influencia a concentração de selênio nas sementes.

Uma árvore única e muito antiga
A castanheira (Bertholletia excelsa) é a única espécie do seu gênero, na família das Lecitidáceas. Foi descrita por Humboldt e Bonpland em 1807. Pode passar de 50 metros de altura e emergir acima da copa da floresta. Datações por carbono indicam árvores com centenas de anos, e algumas talvez com mais de mil, embora os métodos ainda divirjam.

A flor que só abre para abelhas fortes
A flor da castanheira tem uma espécie de capuz fechado. Só abelhas grandes e fortes, de língua longa, conseguem levantá-lo e alcançar o néctar, como as mamangavas e as abelhas-das-orquídeas. A abelha-europeia e as abelhas sem ferrão não chegam lá. E cada flor dura cerca de 12 horas.
Há outro detalhe decisivo: a castanheira não se autopoliniza. Ela precisa do pólen de outra árvore. Num plantio isolado no Amazonas, a polinização natural rendeu cerca de 3% de frutos, contra quase 20% quando o pólen foi levado à mão. Faltavam abelhas, e as abelhas vivem na floresta. Sem floresta por perto, a castanheira quase não frutifica.
O ouriço: mais de um ano para amadurecer
Depois da polinização, o fruto leva mais de um ano para se formar. É o ouriço: uma cápsula lenhosa, redonda, de 8 a 15 centímetros, que pode pesar mais de um quilo. Dentro dele ficam de 10 a 25 sementes, cada uma com sua própria casca. São elas que chamamos de castanhas. Ou seja: a castanha-do-brasil não é uma noz, é uma semente, como vimos no Capítulo 01.
Quando amadurecem, os ouriços caem ao longo de meses, e a safra pode se estender de dezembro a junho, conforme a região. Por isso, a coleta exige atenção: a queda de um ouriço de dezenas de metros de altura representa um risco para quem trabalha na floresta.
A cutia, jardineira distraída
O ouriço quase não se abre sozinho. Quem faz esse trabalho é a cutia. Com dentes fortes, ela rói a casca, come parte das sementes e enterra outras para mais tarde, em geral a poucos metros dali. Num estudo com centenas de esconderijos, os roedores recuperaram quase todas as sementes. Mas as poucas que ficam esquecidas, numa clareira com luz, podem germinar.
Desse modo, a floresta ganha novas castanheiras com a ajuda de uma memória que, às vezes, falha.

Castanha-do-brasil ou castanha-do-pará?
Os nomes contam a história do comércio. Indígenas do Pará a chamavam de anhaúba. Europeus falaram em castanha-do-maranhão; portugueses, em castanha-do-brasil; e o nome castanha-do-pará se popularizou quando o Pará se tornou o grande produtor. Hoje, órgãos oficiais usam castanha-do-brasil, e a Embrapa adota também castanha-da-amazônia.
Embora o nome castanha-do-pará continue conhecido, o Pará não liderava a produção nacional em 2024: segundo o IBGE, o Amazonas foi o maior produtor estadual naquele ano. Além disso, a castanha-do-brasil integra uma cadeia de comércio que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
A loteria do selênio
A castanha-do-brasil é famosa pelo selênio, um mineral essencial. O que pouca gente sabe é que a quantidade depende do solo onde a árvore cresce. Num estudo brasileiro, castanhas do Amazonas tiveram, em média, cerca de 30 vezes mais selênio do que castanhas de Mato Grosso.
Por isso, a ideia de que “uma castanha por dia” garante a dose certa não se sustenta: dependendo da origem, ela pode ficar abaixo da recomendação ou acima do limite seguro. Selênio em excesso tem sinais conhecidos, como queda de cabelo. Curiosamente, um frade português, no século XVII, já tinha associado o consumo exagerado de castanhas à perda de cabelo, muito antes de se conhecer o mineral.
Portanto, este conteúdo é informativo e não substitui orientação individualizada. Quem precisa de aconselhamento sobre selênio ou suplementação deve procurar um profissional de saúde.

Gordura, armazenamento e cuidados
Com cerca de 65 g de gordura por 100 g, boa parte poli-insaturada, a castanha-do-brasil é sensível ao ranço. O ideal é guardá-la em local fresco, seco e escuro, em pote bem fechado. Castanhas mofadas ou com cheiro estranho devem ser descartadas: fungos podem produzir aflatoxinas, e por isso a Anvisa estabelece limites para essas substâncias.
Além dos cuidados com o armazenamento, é importante considerar as alergias alimentares. Por esse motivo, a castanha-do-brasil está entre os ingredientes cuja presença deve ser declarada na rotulagem de alergênicos, conforme as regras da Anvisa.
Da floresta à mesa: gente, reservas e futuro
Quase toda a castanha-do-brasil vem do extrativismo: famílias que coletam os ouriços na floresta, quebram, lavam e secam as sementes. Na cozinha amazônica, o leite de castanha enriquece pratos de peixe, e os ouriços vazios ainda servem de fumaça contra insetos.
Essa economia da floresta em pé está ligada à história de Chico Mendes. A ideia de Reserva Extrativista nasceu em 1985, no movimento dos seringueiros; ele foi assassinado em 1988, e em 1990 foi criada no Acre a reserva que leva seu nome. Ao mesmo tempo, estudos mostram que, onde a coleta é muito intensa e antiga, faltam árvores jovens. Cuidar da castanha é cuidar da floresta que a planta.
Na Amazônia, outros sabores contam histórias parecidas, como o tucupi e o jambu.
O que levar deste capítulo
A castanha-do-brasil é uma semente que depende de abelhas grandes, de um fruto que leva mais de um ano para amadurecer e de uma cutia que esquece onde enterrou. Seu selênio varia conforme o solo, sua gordura pede cuidado no armazenamento, e sua história está ligada às pessoas que vivem da floresta em pé.
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Fontes e aprofundamento
- Salomão, R. P. (2014). A castanheira: história natural e importância socioeconômica. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Ciências Naturais, 9(2).
- Cavalcante, M. C. et al. Biologia floral e polinização da castanheira. In: Castanha-da-amazônia: estudos sobre a espécie e sua cadeia de valor. Embrapa.
- Haugaasen et al. (2010), Journal of Tropical Ecology — roedores e o destino das sementes.
- Silva Junior et al. (2017), Chemosphere — selênio na castanha e o papel do solo.
- Peres et al. (2003), Science — coleta intensa e regeneração das castanheiras.
- NIH Office of Dietary Supplements — selênio: recomendações e limites.
- IBGE. Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), 2024.


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